Filho de peixe, peixinho é. Esse ditado cai bem para o músico, compositor e pastor Nelson Bomilcar. A mãe, cantora de rádio e pianista, desde cedo incentivou os filhos a estudar música. Em 1972, após aceitar a Jesus ouvindo uma pregação no rádio, começou a tocar na igreja, passando pelos grupos Mensagem, Vencedores Por Cristo e Semente. Formado em Teologia pela Faculdade Batista de São Paulo e pelo Regent College em Vancouver (Canadá), Bomilcar acompanhou de perto a evolução da música evangélica no país. Tocou ao lado de gente como Sérgio Pimenta, Guilherme Kerr Neto, Jorge Camargo e Adhemar de Campos, sempre em busca de uma musicalidade brasileira intensa. “Assim como grande parte dos movimentos na história começam com as motivações mais corretas e se perdem no caminho, na igreja pós-moderna a adoração vem perdendo o foco”, diz. A seguir, Bomilcar fala de sua trajetória e avalia o cenário da música evangélica atual: Que mudanças você destacaria na música cristã nessas três últimas décadas? — As mudanças são muitas, desde a estética até o conteúdo das letras. A música cristã de décadas atrás era mais consciente, mais bíblica e mais radical, fruto de um movimento chamado “contracultura cristã”. A mensagem era mais íntegra e honesta — e não sucateada e maquiada como a de hoje. Temos também hoje, assim como na música secular, um número maior e melhor de músicos qualificados. Isto é um ganho para as igrejas, que perderam muitos músicos e artistas no passado por causa de sua ignorância bíblica a respeito da música, da arte e do músico na igreja e a serviço do Reino. “Adorador” e “adoração” são termos que se transformaram em rótulos. Há grupos que adotam essa terminologia como estratégia de marketing. Que avaliação é possível fazer a respeito dessas afirmações? — Assim como grande parte dos movimentos na história — sejam eles sociais, políticos, éticos ou religiosos — começam com as motivações mais corretas e se perdem no caminho, na igreja pós-moderna — uma igreja voltada para o entretenimento, a massificação e o hedonismo, que transforma tudo em objeto de consumo — a adoração vem perdendo o foco. Somos um mercado grande e promissor. Líderes de louvor, artistas, músicos, escritores e pastores não têm resistido à sedução do mercado e acabam permitindo serem transformados em produtos. Só Deus poderá frear esta decadência e ganância por dinheiro e fama. Muitos ministérios brasileiros também foram seduzidos pelo mercado, criando suas próprias estruturas de negócio. Adora-se copiando literalmente os ministérios estrangeiros sem uma avaliação bíblica criteriosa e contextualizada. Como vai a espiritualidade do músico cristão nas igrejas de hoje? — Muito bem e muito mal, quase sempre resultado dos mentores e das referências em que se espelham. É fácil separar os que têm conteúdo dos que estão totalmente despreparados, muitas vezes expostos à mídia de forma imatura. Artistas são muito melindrosos e têm dificuldade em ter aquilo que estão fazendo avaliado de forma criteriosa. Eles precisam ser discipulados e ensinados na Palavra de Deus. Precisam buscar uma vida de oração, comunhão e submissão a líderes espirituais maduros, que mostrem a necessidade do comprometimento com o Evangelho e com o Reino de Deus. Mas a falta de uma espiritualidade realmente cristã não é problema só de músicos, mas da igreja como um todo. Como você define música mundana? — Sofri boas influências de músicos e artistas não-cristãos. Tanto no meio secular como no eclesiástico — ou evangélico — temos boas e más influências. Não dá para seguirmos em tudo alguns líderes ou músicos que se dizem cristãos, mas que estão pregando doutrinas esquisitas, que contrapõem a mensagem do Evangelho. Toda música é do mundo — dentro e fora da igreja —, passa pela influência de homens, vem impregnada da cultura e da experiência do compositor. Entretanto, não é necessariamente música mundanizada, sem valores éticos e morais, ideologicamente irresponsável e alienante ou de conteúdo danoso e corruptível. Existe muita música chamada gospel absolutamente mundanizada e secularizada, sob o poder da indústria que se instalou no segmento cristão. Músicos não-cristãos podem influenciar os cristãos positivamente? — Claro que sim. Todos são. É ignorância, ingenuidade e imaturidade achar que não somos depositários de nossa herança musical e que não absorvemos o que escutamos e aprendemos desde pequenos. João Calvino chama isto de “graça comum”, isto é, tanto para incrédulos quanto para crentes. Existem muitos músicos responsáveis, disciplinados, sérios no trato da arte e dos relacionamentos e que valorizam a família. O que é um músico cristão de fato? O que se denomina cristão, mas não vive o que prega ou canta? Quem conhece os bastidores da música gospel e do mercado evangélico não se ilude mais. Há muita coisa podre, enganadores, exploradores e aproveitadores que não são referência de coisa alguma. Inclusive os que desejam aparentar santidade, mas que manipulam, cerceiam e exploram. Existe algum cuidado que o músico da igreja precisa tomar ao escutar ou curtir músicos ou músicas seculares? — O mesmo cuidado que deve ter ao ouvir músicas ou músicos evangélicos. Segundo recomendação bíblica, somos livres em Cristo para ouvir, porém nem todas as coisas nos convêm ou edificam. Nem tudo que edifica no sertão brasileiro ou na Austrália, edifica na Escócia ou no Quênia. Devemos avaliar criteriosamente e reter o que é bom. Existem canções belas e de bom conteúdo que não ferem a fé cristã, mesmo tocadas por incrédulos. Temos que tomar cuidado também com o que tem sido pregado e cantado pelos que se dizem cristãos. Cuidado com os que dizem: “o Senhor me disse ou deu esta música ou visão...”. Como o músico evangélico pode fazer a diferença no meio musical brasileiro? — Sendo sal e luz, sem fugir dos lugares onde Deus deseja que testemunhemos por ignorância dos líderes da igreja, que desmobilizam os soldados e testemunhas de Cristo. Adorar também é testemunhar e dar exemplo de vida e de integridade entre não-cristãos. Jesus nos ensinou a vivermos entre pecadores, seja na igreja ou fora dela. Sejamos, portanto, agentes da graça. Você acha que as músicas produzidas nas igrejas brasileiras têm sabor brasileiro? — Criou-se uma distância enorme de nossa cultura. O sabor ainda não existe, a não ser em pequenos focos ou determinadas igrejas que têm compositores de música brasileira e coragem de incorporá-la nos cultos públicos. Este sabor brasileiro ainda não impregnou as igrejas porque é mais fácil fazer versões dos CDs de ministérios considerados consagrados que chegam ao país. É a conseqüência da globalização e da indústria que massifica as músicas estrangeiras aqui. Todos querem imitar os produtos que vêm com uma teologia pronta, baseada em experiências pessoais dos seus fundadores e ministros de louvor. Há um forte preconceito contra a nossa cultura, que muitos julgam, erroneamente, ser demoníaca ou antibíblica. Isso é fruto de uma mentalidade fechada e retrógrada, que impede a igreja brasileira de crescer fonte: Revista VM